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Interfaces entre Ciência e Espiritualidade

Atualizado: 19 de fev.

Um dos intelectuais públicos de maior impacto no pensamento contemporâneo brasileiro e mundial, Gleiser pesquisa a origem das complexas estruturas da natureza para descobrir o sentido do mundo e nosso lugar no grande esquema das coisas. Vencedor de três prêmios Jabuti, é internacionalmente reconhecido por suas obras e no meio acadêmico por ser também um divulgador da ciência, mostrando como as mais complexas teorias estão interligadas ao cotidiano de todos nós. Em O fim da terra e do céu – O apocalipse na ciência e na religião, ele aponta de que maneira as ideias sobre um possível fim inspiram não apenas a pesquisa científica e as religiões, mas também a literatura, a arte e o cinema. O livro é uma homenagem à imaginação e à criatividade da humanidade. Em entrevista ao Portal da PUCRS, Gleiser respondeu questões sobre espiritualidade e ciência. Confira:

Como a ciência e a espiritualidade impactam nas atividades da profissão de Medicina?

A ciência é claramente essencial na medicina. Praticamente todos os grandes avanços no tratamento e prevenção de doenças são produto de pesquisas e descobertas científicas. Vemos isso agora de forma acentuada durante a pandemia, visto que a esperança do fim está diretamente ligada com a produção de uma vacina eficiente. Quanto à espiritualidade, depende de como vemos o termo. Se entendemos por espiritualidade o estar bem consigo e com o mundo à sua volta, ter uma sensação de bem-estar e de pertencer a uma comunidade, é fundamental. Afinal, o corpo só está bem quando estamos bem com um todo.

Você comenta que existe muito mais para além da visão limitada de realidade que conhecemos. As pessoas estão prontas para um conhecimento mais profundo sobre a vida?  

Sem dúvida. Acho que as pessoas precisam de um conhecimento mais profundo sobre a vida; só assim evitamos dispersá-la, vivendo cada dia sem um rumo ou objetivo maior. A questão que cada um deve se perguntar é: por que você acorda todos os dias? Qual sua missão na vida? Ampliar os horizontes é saber viver bem. Como é possível tornar esses conhecimentos mais populares, aproximando da realidade das pessoas? Através de conversas como essa que vamos ter, da exploração de novos horizontes com amigos ou sozinhos, por meio de leituras com conteúdo que tenha credibilidade e que não espalhe ilusões fáceis. A realização só vem com muito suor. De certa forma, a ciência permite que ampliemos a nossa visão da realidade, utilizando uma série de instrumentos.

Quais serão essas ferramentas no futuro?

Existem muitas, mas acho que duas coisas vão dominar a instrumentação do futuro: a automação cada vez maior — robôs e computadores cada vez mais autônomos que farão serviços e tarefas complexas deforma mais eficiente do que humanos; e a miniaturização, em particular a nanotecnologia, que trará grandes avanços na medicina. Mas para isso, as pessoas têm que se preparar, e as universidades e cursos preparatórios têm que se adaptar a essa nova realidade. Eventualmente, acho que teremos uma espécie de aliança entre corpo e tecnologia, ampliando nossa capacidade física e mental. A Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade da PUCRS: Fundada com o intuito de dialogar sobre uma abordagem mais integrada da saúde humana, busca contemplar os aspectos filosóficos da espiritualidade, assim como os desfechos positivos e negativos da religiosidade no enfrentamento das doenças e adversidades vivenciadas pelos pacientes. Além disso, promove a desconstrução de uma ambivalência histórica de que ciência e fé são fenômenos dicotômicos, abrindo espaço para uma discussão construtivista, agregadora e solidária no meio acadêmico. É composta por diretores docentes e graduandos coordenadores discentes, dos cursos de Medicina e Psicologia. Além disso, conta com 30 ligantes da área da Saúde, formando um espaço de discussão multiprofissional.


O autor: Marcelo Gleiser, carioca, é um cientista de renome internacional, professor titular de física e astronomia no Dartmouth College, doutorado pelo King’s College de Londres em 1986. É autor de mais de 100 artigos especializados e milhares de ensaios, publicados desde o New York Times a revistas infantis. Detentor do Presidential Faculty Fellows Award, dado pelo então presidente Bill Clinton, conselheiro da Sociedade Americana de Física, vencedor de três prêmios Jabuti, é autor de 14 livros com traduções em 15 línguas. Fundou e dirige o Instituto de Engajamento Interdisciplinar do Dartmouth College. Em 2019, foi o primeiro latino-americano a vencer o Prêmio Templeton, um dos mais prestigiosos do mundo, honra que divide com Madre Teresa, Dalai Lama, Desmond Tutu, Aleksandr Solzhenitsyn, e os cientistas Freeman Dyson, Martin Rees, e outros líderes religiosos e intelectuais.

  • Francisco Di Biase – Cultura de Saúde

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